Limites da geração hidrelétrica e seu impacto na diversificação da matriz nacional
Por que o Brasil precisa acelerar a expansão de outras fontes para garantir o atendimento à demanda crescente, apesar da liderança histórica da geração hidrelétrica? A geração hidrelétrica foi protagonista na matriz energética brasileira por muitas décadas, garantindo a confiabilidade e baixo custo operacional do sistema elétrico, além de possibilitar o status de referência mundial em fontes renováveis para o país.
Apesar da hegemonia consistente desta fonte, estudos do Plano Nacional de Energia 2050 (PNE 2050) e do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035) demonstram que a representatividade da hidreletricidade tende a diminuir nas próximas décadas. Isso ocorre em função dos desafios que envolvem a construção e operação de novas usinas, marcados por questões socioambientais, geográficas e climatológicas. Diante desses entraves, o Brasil passa a enfrentar o desafio de conseguir conciliar a crescente demanda com a necessidade de diversificação de fontes em sua matriz elétrica.
Ainda tendo como base o PNE 2050, constata-se que a maior parte do potencial hidrelétrico do país já foi aproveitado, nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste. Dessa forma, a única região com possibilidade de expansão expressiva dessa fonte seria a região Norte, especialmente na Amazônia e no Araguaia-Tocantins.
E é nessa dimensão geográfica que reside o maior impasse, devido aos diversos pontos sensíveis dessas localidades:
- Complexidade Ambiental e Regulatória: A diversidade natural da região, amplamente protegida por lei, acarreta grande complexidade legal e regulatória.
- Complexidade Social e Territorial: A presença de comunidades indígenas e ribeirinhas traz desafios sociais e econômicos, além de elevada possibilidade de judicialização.
- Distância dos Grandes Centros: A distância dessas áreas para os centros de consumo resulta em complexidade técnica e de planejamento, exigindo investimentos robustos no sistema interligado para o escoamento da energia gerada.
Abaixo, o gráfico disponível no PNE 2050, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), demonstra a limitação da expansão da geração hidrelétrica e sua concentração em áreas sensíveis. Os triângulos em vermelho representam, conforme legenda disponível, os locais com potencial inventariado, ou seja, o potencial já estudado, analisado e constatado como viável para instalação de novas usinas:
Figura 1 – Distribuição geográfica do potencial hidrelétrico inventariado no Brasil e áreas sensíveis. Fonte: Empresa de Pesquisa Energética – EPE (2020).
Outro gráfico disponibilizado pelo PNE 2050 permite observar as restrições socioambientais associadas ao potencial hidrelétrico inventariado, sob uma perspectiva territorial. As categorias TI (Terras Indígenas), TQ (Territórios Quilombolas) e UC (Unidades de Conservação) evidenciam a extensa sobreposição entre os aproveitamentos mapeados e áreas legalmente protegidas.
Os dados indicam que apenas 23% dos projetos classificados como viáveis situam-se fora dessas zonas de proteção, o que ressalta a elevada complexidade socioambiental envolvida na expansão hidrelétrica nacional.
Figura 2 – Sobreposição do potencial hidrelétrico inventariado com áreas de restrição socioambiental no Brasil. Fonte: Empresa de Pesquisa Energética – EPE (2020).
Além da possibilidade reduzida de expansão da geração hidrelétrica a partir das questões abordadas, a variabilidade climática também possui impacto relevante nos estudos de viabilidade de novos projetos e na projeção de geração futura das usinas em operação.
O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) – órgão científico da ONU, apontou em 2021 a maior volatilidade do regime de precipitação e o aumento da ocorrência de secas extremas em regiões tropicais e subtropicais, influenciando diretamente os recursos hidrológicos. Essa tendência também é corroborada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que em 2023 alertou sobre a maior frequência de períodos de estiagem na América do Sul e redução da disponibilidade hídrica em bacias estratégicas.
No Brasil, a Agência Nacional de Águas (ANA) apresentou em 2022 evidências de maior irregularidade nas vazões de rios importantes como Paraná, Grande e São Francisco. Em paralelo, o Operador Nacional do Sistema (ONS) elaborou análises contundentes demonstrando a queda expressiva da afluência na crise hídrica de 2021.
É interessante observarmos o mapa disponibilizado pelo IPCC sobre como a projeção de aumento de temperatura global afeta diferentes regiões:
Figura 3 – Projeções de alterações na precipitação e na umidade do solo no Brasil sob cenários de mudança climática. Fonte: Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC (2021).
Com a análise dos mapas do IPCC e informações discutidas, observa-se que as regiões com maiores impactos na precipitação e umidade do solo no Brasil são as regiões Norte e Nordeste, que sofreriam com estiagem severa e risco de saturação do solo.
Como a precipitação e a umidade do solo são variáveis essenciais para a geração hidrelétrica, esse cenário compromete a confiabilidade da fonte. Além disso, afeta justamente as regiões com maior potencial inventariado, que já enfrentam forte redução de viabilidade devido aos conflitos socioambientais e à judicialização. A perspectiva de mudança climática intensifica esse quadro, pois a redução das chuvas e da umidade do solo tende a diminuir a geração prevista para os novos projetos.
IMPACTOS DAS LIMITAÇÕES DA GERAÇÃO HIDRELÉTRICA
A necessidade de diversificação da matriz energética promove a expansão do uso de outras fontes renováveis ou não, para manutenção do fornecimento com confiabilidade.
Nesse cenário, já observamos a redução da representatividade da geração hidrelétrica, conforme dados do Balanço Energético Nacional (BEN) de 2025 (base 2024), publicado pela EPE. Em contrapartida, fontes como eólica e solar vêm ganhando espaço significativo:
Figura 4 – Evolução da participação da geração hidrelétrica na matriz elétrica brasileira. Fonte: Empresa de Pesquisa Energética – EPE (2025).
Figura 5 – Evolução da participação das fontes eólica e solar na matriz elétrica brasileira. Fonte: Empresa de Pesquisa Energética – EPE (2025).
Adicionalmente ao destaque das fontes eólica e solar, as usinas de gás natural de despacho imediato também podem ser uma alternativa estratégica na transição para diversificação da matriz, devido às suas características de confiabilidade e flexibilidade operacional. Diferentemente das fontes intermitentes, o gás natural pode ser acionado sob demanda e possui menor intensidade de emissões em comparação a outros combustíveis fósseis.
Com isso, esta fonte pode contribuir significativamente para a segurança do sistema elétrico, especialmente no processo de redução da dependência da geração hidrelétrica. Entretanto, sua utilização requer investimentos em infraestrutura (gasodutos, terminais, sistemas de transporte e distribuição) e estudos de viabilidade técnica que garantam competitividade a longo prazo.
Ademais da expansão de outras fontes, a diversificação da matriz apresenta a necessidade de armazenamento de energia para reduzir a dependência de fontes de acionamento imediato, garantindo maior flexibilidade, estabilidade e previsibilidade. Neste cenário, as baterias assumem papel estratégico, permitindo que a energia seja deslocada de momentos de maior oferta para momentos de maior demanda.
PERSPECTIVAS DA DIVERSIFICAÇÃO DA MATRIZ ELÉTRICA
Diante da complexidade da diversificação da matriz, é possível inferir desafios críticos a serem superados:
- Necessidade de modernização do SIN: A inclusão de diversas fontes exige maior digitalização, automação, uso de redes inteligentes e reforços estruturais no Sistema Interligado Nacional (SIN). Apresenta-se também a necessidade de revisão de modelos e investimentos robustos em infraestrutura.
- Maior exposição ao PLD: A variabilidade das renováveis eleva o risco financeiro dos agentes, exigindo estratégias de gestão e contratação mais robustas.
- Desafios tarifários e regulatórios: Necessidade de rever regras e metodologias de cálculo de encargos e tarifas, condizentes com a nova realidade do setor.
- Integração eficiente de fontes intermitentes: Requer tecnologias de armazenamento, previsão meteorológica avançada, sistemas de controle e ajustes no modelo de operação.
- Novo papel da hidrelétrica: Ampliação do uso da geração hidrelétrica como agente de armazenamento e garantia de flexibilidade operacional, respeitando a complexidade ambiental de variações abruptas de vazão.
- Alteração do perfil de carga horária do SIN: Expectativa de redução de pressão nos picos de consumo devido à abertura de mercado (Lei 15.269/2025). Com consumidores residenciais mais expostos à precificação, espera-se que desloquem gradualmente seu consumo para períodos mais baratos.
O setor brasileiro está em um momento decisivo, com o declínio da geração hidrelétrica e a expansão de novas fontes na matriz energética. Apesar dessa necessidade de diversificação, a geração eólica e solar apresentam inflexibilidade, o que acarreta um grande desafio no gerenciamento da demanda e na garantia de potência do sistema.
Com este cenário, cresce a necessidade de desenvolver estratégias integradas que garantam a confiabilidade do sistema, incluindo modernização do setor, armazenamento de energia e investimento robusto em infraestrutura. Além disso, perspectivas favoráveis para o gás natural e a evolução para modelos de gerenciamento mais robustos tendem a assumir um papel relevante nesta nova conjuntura.

